Audi Quattro de Grupo B

Published On 14 de Novembro de 2012 | carros e marcas

Porventura um dos carros de rali mais importantes de todos os tempos deu-se a conhecer ao mundo em 1980, com o aparecimento do candidato Audi Quattro. O Quattro foi o primeiro carro de rali a tirar vantagem das novas regras que permitiam tracção às quatro rodas nos ralis. Porém havia algumas dúvidas iniciais, sobre a adequação de quatro rodas motrizes nesta modalidade. Alguns pensavam que seria um sistema muito complexo e pesado para ser competitivo. Os críticos ficaram rapidamente sem argumentos quando viram as qualidades dos sistemas de tracção total em acção.

O Quattro ganhou seu primeiro rali na sua primeira aparição, no rali Austríaco do campeonato europeu em 1981. A experiência das quatro rodas motrizes foi um sucesso instantâneo. O Quattro ganhou em seguida um par de ralis do campeonato mundial, e a Audi ganhou uma enorme exposição mundial, quando Michèle Mouton venceu o Rali de San Remo em 1981, sendo assim a primeira mulher a ganhar a nível internacional nesta modalidade. A temporada de 1982 dava a entender, que se iria ver um domínio avassalador da marca alemã.

Enquanto o Audi era claramente o mais rápido, e um dos carros de rali mais revolucionários que o mundo já tinha visto, obviamente que também tinha uma série de pontos negativos. O Quattro era bastante pesado, o seu motor dianteiro e chassi monocoque deram ao carro, características de comportamento em certo modo desajeitado. E para além disso o carro teve inúmeros problemas mecânicos. O carro ganhou o campeonato de construtores de 1982, mas Walter Röhrl teve sua primeira vitória do ano e do campeonato no último evento, ao Rali da Costa do Marfim, onde o Audi Quattro de Michèle Mouton sofreu com uma caixa de velocidades partida.

A temporada de 1983 foi uma temporada agridoce para a Audi, a introdução da concorrência mais acirrada do prometido Lancia 037 (apesar do 037 não ter sido equipado com tracção às 4 rodas). O principal piloto da Audi, Hannu Mikkola, ganhou o campeonato de pilotos em 1983, mas os pilotos da Lancia Markku Alen e Walter Röhrl terminaram nos pontos com suficiente frequência para dar à Lancia o título dos construtores.

O Sport Quattro foi o primeiro carro da Audi para o famoso Grupo B. O chassis era muito diferente em comparação com o original. Note-se que 320 milímetros foram cortados ao chassi/carroçaria que era visualmente visível entre a porta e da roda traseira. A Audi também quis melhorar o equilíbrio de peso, movendo as baterias, radiadores de óleo e outros para a parte traseira do carro. O resultado final foi um equilíbrio de peso de 52% na frente e 48% na traseira, mas ainda assim o peso encontrava-se longe do centro de gravidade.

A temporada de 1984 foi a que teve maior sucesso para a Audi no Mundial de Rali. O piloto Stig Blomqvist com o seu estilo muito característico, ao pilotar em longas derrapagens, juntamente com a introdução da curta distância entre eixos, com uma mecânica mais potente e mais avançada (+ de 450 cv, 2133cm3 e 5 cilindros em linha), com uma caixa de seis velocidades e uma carroçaria em Kevlar, fizeram do Sport Quattro uma receita vencedora. Todas estas características combinadas, deram para ganhar os dois títulos de pilotos e construtores em 1984.

No entanto, a temporada de 1984 conheceu um novo desafiante à coroa da Audi. A Peugeot tinha acabado de lançar sua nova arma, o 205 T16, na Córsega para o rali Tour de Corse. O novo 205 era diferente do Quattro em vários aspectos fundamentais, possuía motor central, num chassi próprio para o efeito, e era um carro mais pequeno e com menos peso. O piloto principal da Peugeot, Ari Vatanen quase ganhou o primeiro rali com o 205, porém um acidente prematuro roubou-lhe essa oportunidade. O Peugeot causou preocupação suficiente para que os chefes de equipa Audi enviassem mensagens para os engenheiros em Ingolstadt, lembrando aos engenheiros para continuar o desenvolvimento do Quattro, porque era imperativo não “dormir à sombra” do sucesso até então alcançado.

E os engenheiros da Audi responderam com prontidão, ao produzirem o radical Sport Quattro S1. Este Audi foi introduzido no Rali 1000 Lagos, em 1985, e provou à comunidade que acompanhava os Ralis que a Audi estava muito comprometida na sua tentativa de recuperar a forma anterior. O S1 tinha mais poder do que qualquer outro carro da história dos ralis, pois o seu motor debitava mais de 600 cavalos de potência de potência, em 1986, tinha enormes asas para ajudar com imenso apoio aerodinâmico à tracção nas etapas mais rápidas. Diante da crescente qualidade dos seus rivais em competição, o S1 só conseguiu uma única vitória, no rali de San Remo em 1985. O Quattro nas suas várias configurações, correram no período de quatro anos e meio, vencendo quatro campeonatos e mudando o mundo dos ralis para sempre.

Porém este emblemático automóvel não obteve sucesso só no mundial de Ralis. A famosa prova do Pikes Peak, no Colorado, com uma altura de 4.301 metros de altura, onde inúmeros pilotos enfrentaram desde 1916 a subida de cascalho e asfalto com 20 km de extensão a partir do vale, até ligeiramente abaixo do pico. Nunca ninguém tinha baixado a barreira dos 11 minutos.

A Audi decidiu que precisava participar nesta prova para aumentar a exposição da marca na América. Assim a marca dos 4 anéis decidiu enviar o seu piloto americano John Buffum a Pikes Peak, para competir na famosa subida anual. A primeira tentativa do Quattro foi impressionante, Buffum definiu um tempo que só foi batido por oito protótipos construídos especificamente para a prova americana.

A prova em 1983 foi semelhante à de 1982, com Buffum a terminar em sexto na geral. Em 1984 e 1985, a Audi enviou Michèle Mouton para a América, e em 1985, ela estabeleceu o melhor tempo já registado na montanha. Em 1986 a Audi contratou o piloto americano de corridas, Bobby Unser para pilotar o Quattro e ele acabaria por ganhar a prova.

A mítica e difícil barreira dos 11 minutos foi quebrada em 1987 por Walter Röhrl, que estabeleceu um novo record na prova, com um tempo de 10:47.85 minutos. Com um Quattro S1, debitando mais de 600 cavalos de potência máxima, preparado especialmente para esta prova.

Talvez a maior façanha que a Audi já alcançou nos ralis nunca chegou a ver a luz na competição. Após o cancelamento do Grupo B, em 1986, a Audi anunciou que tinha produzido e construído um motor com mais de 1.000 cavalos de potência! O motor foi testado em várias corridas de montanha, mas os pilotos relataram que o carro era impossível de guiar, com uma tendência inquietante para simplesmente ir a direito nas curvas. Os engenheiros da Audi nunca deixaram de surpreender os observadores durante os dias de rali do Grupo B, e até hoje, os fãs dos ralis lembram o Quattro com uma mistura de admiração e respeito.

Ninguém que teve o privilégio de ver estes automóveis em acção se esquecerá do som mítico do motor turbo de 5 cilindros. Portugal e os portugueses foram testemunhas das qualidades do Quattro da Audi, quando no Rali de Portugal, competiam pelas estradas portuguesas a velocidades vertiginosas entre muros, pessoas e afins.

Sérgio Gonçalves

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