Carros descartáveis

Published On 26 de Março de 2015 | Opinião

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Cresci habituado a ver carros rijos. Os anos 80 e 90 criaram motores, maioritariamente molengas, mas campeões olímpicos da resistência. Todos os nossos pais tinham o Peugeot com 300 mil km que ligava à primeira, o Toyota que funcionava com tão pouco óleo que a vareta nem molhava, ou a Transporter que, de tantas vezes ir à França, já tinha virado o milhão.

Não se falava em consumos, binário ou Stop & Start. Os carros eram comprados porque se gostava do design, da cor, ou por amor à marca, tal como se de um clube de futebol se tratasse.

Mas felizmente tudo evolui. Os carros hoje tornam-se mais seguros, mais rápidos e mais amigos do ambiente. Combinam-se técnicas de outras áreas que não a mecânica para melhorar as viagens, o conforto e até o nosso entretenimento enquanto conduzimos.

Os carros hoje estacionam sozinhos, impedem acidentes e indicam-nos o caminho mais rápido. São feitos com materiais que o meu avô ainda não acredita que existem. Leves, baratos de produzir, e resistentes.

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Ou serão mesmo resistentes?
Para além dos consumos, binário, emissões, tornou-se hábito procurar carros “fiáveis”.
Porquê? Não seria óbvio que um carro mais moderno fosse mais fiável? Não seria também óbvio que, com o passar dos tempos, os carros conseguissem fazer mais e mais quilómetros antes de serem dados para abate?

Não é isso evoluir?
A verdade é que com o passar dos tempos, e com a facilidade na partilha de informações, mais e mais vezes se ouvem falar de problemas de X motor de Y marca.

E agora? Morremos de medo que a correia de distribuição do BMW rebente. Tememos que o nosso Renault não abra as portas por falha eléctrica. Fazemos contas à vida quando a luz do motor se acende no nosso VW. Cem mil quilómetros num moderno carro a gasolina, são os quinhentos mil de há vinte anos atrás.

A esperança média de vida de um moderno automóvel é tão curta que nem nos dá tempo de gozar o Bi-Xenon, o estacionamento automático ou o volante aquecido.

Os carros tornaram-se lâminas de barbear. Descartáveis.

Em 5 anos ou à primeira luz do motor ligada no painel de instrumentos, mudamos de carro, angustiados com o modelo, a marca, ou o motor.

Já não há paixão pela marca, há paixão pelo que nos der menos dores de cabeça.

Tornaram os carros cada vez mais bonitos, mas é inútil. Já não os escolhemos pela sua beleza.

Joel Rodrigues

Joel Rodrigues

Stand up comedian e youtuber. Já passou pelos mais conhecidos palcos e eventos de humor nacionais, em mais de 300 atuações em 4 anos. Adora automóveis desde que começou a andar, e suas primeiras palavras foram algumas marcas de carros, e só depois "mamã" e "papá". Troca facilmente uma noite de copos por uma noite a montar um turbo.
Joel Rodrigues

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4 Responses to Carros descartáveis

  1. Pedro Robalo says:

    Uma verdade absoluta…

  2. Igor Lima says:

    Cada vez mais os carros e não só são feitos a pensar num tempo útil de vida mto curto para apelar ao consumismo e aumentar as vendas e consequente lucro das marcas já que não conseguem ganhar nas oficinas teem de o ganhar com as vendas

  3. Eusébio says:

    Concordo plenamente com o que aqui foi escrito, o problema é que as pessoas têm cada vez mais a mentalidade de ter de comprar um carro novo / recente porque vai dar menos problemas. Carros antigos?? Longe… Mas depois quando dão problemas só me rio…

  4. Alex Torres says:

    Absoluta treta. O meu pai nos anos 80 e 90 queixava-se que os carros antigamente é que eram feitos para durar e os que eram feitos na altura não valiam nada. Por cada carro que semncionam no artigo que durava 1 milhão de km, havia 10 que avariavam e iam para a sucata. Os carros de hoje têm mais electrónica mas têm maior rigor na construção (“Quality Control”) que não existia a 20 anos atrás. Daqui a 20 anos vai haver outro jornalista a escrever que antigamente é que era bom…

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