
A proposta de tornar “fisicamente impossível” exceder os limites de velocidade faz parte de uma visão conhecida como Safe System Approach (Sistema Seguro), adotada por muitos especialistas em segurança rodoviária. A ideia central é que os seres humanos cometem erros, pelo que os veículos e as estradas devem ser concebidos para que esses erros não resultem em mortes ou ferimentos graves.
Em que consiste a proposta?
Os especialistas sugerem que todos os veículos sejam equipados com um sistema obrigatório que:
- conheça o limite de velocidade da estrada através de GPS e reconhecimento de sinais;
- impeça automaticamente o veículo de acelerar acima desse limite;
- permita apenas exceções muito específicas, como veículos de emergência (ambulâncias, bombeiros e polícia).
Ao contrário dos limitadores atuais, que podem ser desligados, esta proposta prevê que o sistema seja permanente e difícil ou impossível de desativar.
Como funcionaria na prática?
O veículo combinaria várias tecnologias:
- GPS com mapas digitais dos limites de velocidade;
- Câmaras que identificam sinais de trânsito;
- Software que compara as duas fontes de informação;
- Gestão eletrónica do motor, que impede o aumento da potência quando o limite é atingido.
Por exemplo:
- Numa estrada limitada a 50 km/h, ao atingir essa velocidade, pressionar mais o acelerador não faria o carro acelerar além desse valor.
- Se o limite mudasse para 80 km/h, o sistema permitiria automaticamente essa velocidade.
Porque defendem esta medida?
Os especialistas argumentam que:
- O excesso de velocidade aumenta tanto a probabilidade de acidente como a gravidade das lesões.
- Pequenos aumentos de velocidade têm um grande impacto na energia de uma colisão. Por exemplo, um peão atropelado a 30 km/h tem uma probabilidade muito maior de sobreviver do que a 50 km/h.
- Muitos condutores excedem os limites sem intenção, especialmente em zonas urbanas.
Segundo esta perspetiva, confiar apenas no comportamento do condutor não tem sido suficiente para reduzir as mortes nas estradas.
Quem apoia?
Entre os apoiantes encontram-se:
- investigadores em segurança rodoviária;
- médicos especialistas em trauma;
- organizações de prevenção de acidentes;
- algumas entidades ligadas à saúde pública.
Estes grupos defendem que a tecnologia deve desempenhar um papel semelhante ao dos cintos de segurança ou do controlo eletrónico de estabilidade, que inicialmente também geraram resistência mas hoje são considerados equipamentos essenciais.
Quais são as principais críticas?
A proposta é controversa por várias razões:
- Perda de autonomia: muitos consideram que cabe ao condutor decidir como conduzir.
- Emergências: há situações em que acelerar acima do limite pode ajudar a evitar um acidente ou responder a uma emergência.
- Erros tecnológicos: um GPS ou uma câmara podem interpretar incorretamente o limite de velocidade.
- Custos: seria necessário equipar todos os novos veículos e, eventualmente, adaptar parte da frota existente.
- Aceitação pública: muitos automobilistas veem a medida como uma intervenção excessiva do Estado.
Existe algum país que já o faça?
Não de forma obrigatória. Atualmente:
- A União Europeia exige que os automóveis novos tenham sistemas de Intelligent Speed Assistance (ISA), mas estes apenas alertam o condutor ou oferecem uma resistência ligeira ao acelerador.
- O condutor pode normalmente desativar o sistema em cada viagem.
- Nenhum país obriga, por enquanto, a que os automóveis sejam totalmente incapazes de ultrapassar o limite de velocidade.
Qual é a probabilidade de esta proposta avançar?
É relativamente baixa no curto prazo. Embora haja consenso sobre os benefícios da tecnologia para reduzir acidentes, tornar impossível exceder os limites enfrenta forte oposição de associações de condutores, fabricantes automóveis e alguns responsáveis políticos.
Por isso, é mais provável que, nos próximos anos, os sistemas ISA se tornem cada vez mais precisos e mais difíceis de ignorar, antes de se avançar para uma limitação absoluta da velocidade.
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