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McLaren M6GT: o supercar que Bruce McLaren sonhou construir

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Antes do lendário McLaren F1, antes da McLaren Automotive e muito antes dos atuais supercarros de Woking, Bruce McLaren já tinha imaginado um automóvel de estrada com ADN de competição.

Esse automóvel chamava-se McLaren M6GT.

Nascido no final dos anos 1960 a partir da experiência da McLaren na competição Can-Am, o M6GT pretendia transformar a tecnologia de um carro de corrida num verdadeiro automóvel de estrada. O projeto nunca chegou à produção em série, mas acabou por se tornar uma das peças mais importantes da história da marca. A própria McLaren considera a visão de Bruce McLaren para o M6GT como a génese dos seus futuros automóveis de estrada.

Do circuito para a estrada

A história começa com o McLaren M6A, um dos carros que ajudaram a estabelecer a reputação da McLaren na Can-Am.

A ideia de Bruce McLaren era levar aquela filosofia para um automóvel homologado para utilização na estrada. O resultado foi um pequeno coupé de aparência extremamente baixa e aerodinâmica, construído em torno de uma estrutura leve e inspirado diretamente na competição.

O protótipo recebeu a matrícula OBH 500H e foi conduzido pelo próprio Bruce McLaren. Não era apenas um exercício de design: Bruce utilizava-o para deslocações pessoais e para ir a eventos de competição.

Um supercarro à frente do seu tempo

O M6GT tinha características que, para o final da década de 1960, eram extraordinariamente avançadas.

A carroçaria apresentava uma silhueta extremamente baixa e aerodinâmica, uma estrutura monocoque e portas de abertura tipo borboleta — uma solução que décadas mais tarde se tornaria associada aos grandes supercarros McLaren.

Até os faróis eram pouco convencionais: no protótipo, eram acionados manualmente através de pequenas aberturas existentes na parte dianteira dos alojamentos dos faróis.

Bruce McLaren queria criar um automóvel que fosse simultaneamente leve, rápido, seguro e tecnologicamente avançado.

O motor Chevrolet V8

Por baixo da carroçaria estava um motor Chevrolet V8 small-block, preparado por Bartz.

A McLaren estimava que o protótipo poderia atingir aproximadamente 265 km/h, ou 165 mph, e acelerar dos 0 aos 161 km/h em cerca de oito segundos. Para finais dos anos 60, eram números impressionantes.

O objetivo de Bruce não era simplesmente criar um carro rápido. Ele queria demonstrar que a experiência adquirida pela McLaren nas pistas podia ser transformada num automóvel de estrada utilizável.

Essa filosofia viria a definir a marca décadas mais tarde.

O projeto que morreu com Bruce McLaren

Bruce McLaren chegou a procurar uma forma de transformar o protótipo num automóvel de produção.

Para isso, estabeleceu uma colaboração com Peter Agg, da Trojan, empresa que já tinha experiência na construção de carros de competição para clientes McLaren.

O objetivo era produzir o M6GT para clientes particulares. No entanto, o projeto nunca avançou como Bruce pretendia.

A morte prematura de Bruce McLaren, em 1970, durante um teste de um carro de competição em Goodwood, acabou por colocar um ponto final no sonho de produção do M6GT.

O número exato de exemplares/protótipos associados ao projeto varia conforme a fonte e a fase de desenvolvimento considerada, mas o essencial é claro: o M6GT nunca se tornou um modelo de produção em série.

O nascimento espiritual do McLaren F1

Talvez a parte mais importante da história do M6GT seja aquilo que aconteceu muitos anos depois.

Bruce McLaren tinha morrido, mas a ideia de construir um verdadeiro supercarro de estrada permaneceu ligada à identidade da empresa.

Cerca de 25 anos depois do projeto original, essa visão finalmente ganhou forma no McLaren F1.

O F1 seria muito mais sofisticado, potente e tecnologicamente avançado, mas partilhava com o M6GT uma ideia fundamental: um automóvel de estrada concebido com a mentalidade de uma equipa de competição.

É por isso que a própria McLaren descreve o M6GT como a origem da sua história de automóveis de estrada.

2026: a McLaren termina aquilo que Bruce começou

E aqui está a parte mais surpreendente da história.

Em 2026, a McLaren Special Operations (MSO) decidiu recuperar o projeto.

A empresa construiu um novo M6GT utilizando moldes originais da carroçaria, documentação histórica, fotografias de arquivo e componentes restaurados, procurando reproduzir o automóvel que Bruce McLaren poderia ter levado à produção.

O novo exemplar foi construído a partir de um chassis de M6A de competição e recebeu uma carroçaria produzida com recurso aos moldes históricos.

A McLaren chegou mesmo a descobrir moldes originais que tinham sido modificados durante o desenvolvimento do projeto nos anos 60. Isso permitiu à MSO reconstruir uma interpretação mais próxima da evolução que o M6GT poderia ter tido se o programa tivesse continuado.

Mecânica fiel à época

Em vez de transformar o M6GT num restomod moderno, a McLaren optou por preservar a sua essência histórica.

O novo exemplar utiliza um V8 Chevrolet small-block de especificação de época associado a uma caixa manual de cinco velocidades. A suspensão original foi restaurada e reconstruída, enquanto vários componentes foram fabricados artesanalmente pela MSO.

Até o interior segue essa filosofia.

O automóvel recebeu bancos em vinil verde e um comando da caixa em madeira de nogueira trabalhada manualmente, recriando o ambiente que poderia ter existido no carro original.

Um carro que nunca teve oportunidade de envelhecer

O M6GT tornou-se uma espécie de fotografia congelada de uma época.

Se tivesse entrado em produção, poderia ter sido um dos primeiros verdadeiros supercarros de estrada britânicos com uma ligação tão direta à competição. Mas o destino quis outra coisa. O projeto foi interrompido, Bruce McLaren morreu e o M6GT permaneceu como uma demonstração do que poderia ter sido.

Décadas mais tarde, o McLaren F1 acabaria por cumprir parte desse sonho. E agora, em 2026, a reconstrução realizada pela MSO permite finalmente imaginar como poderia ter sido o automóvel de estrada de Bruce McLaren se ele tivesse tido a oportunidade de o terminar.

Sérgio Gonçalves

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